A dieta enteral, também conhecida como nutrição enteral, consiste na administração de nutrientes, total ou parcialmente, por meio de um tubo ou sonda. Essa abordagem é recomendada para indivíduos que não conseguem obter os nutrientes necessários através da alimentação oral convencional. A sonda é geralmente inserida pelo nariz ou pela boca, direcionando-se ao estômago ou intestino, podendo também ser administrada por meio de gastrostomia ou jejunostomia.
Existem diversas opções de dieta enteral, incluindo as preparadas em casa (artesanais) e as industrializadas. A escolha do tipo mais adequado é determinada por um médico ou nutricionista, levando em consideração o estado de saúde do paciente, suas necessidades nutricionais específicas, o tipo de dispositivo de administração e a localização da sonda.
Quando a Dieta Enteral é Indicada
A dieta enteral pode ser prescrita em diversas situações, tais como:
- Pacientes em estado crítico em ambiente hospitalar: Idealmente, deve ser iniciada entre 24 a 48 horas após a internação.
- Pacientes hospitalizados com risco nutricional.
- Pacientes em domicílio com dificuldade de alimentação oral e ingestão nutricional inferior a 60% da meta: Casos comuns incluem disfagia decorrente de doenças neurológicas, cardíacas e câncer no trato gastrointestinal.
- Pacientes desnutridos ou em alto risco nutricional: Com aceitação oral abaixo de 60% das necessidades por 1 a 2 semanas.
- Idosos: Quando a via oral é contraindicada ou a ingestão alimentar é insuficiente por mais de 3 dias consecutivos.
- Idosos que necessitam de maior aporte nutricional para recuperação: Como em casos de cicatrização de feridas, sarcopenia, grandes cirurgias e queimaduras, quando a alimentação oral não supre as necessidades.
- Idosos: Quando a alimentação e suplementação oral não atendem às necessidades diárias de energia e proteínas, ou quando um aporte calórico extra é necessário para melhorar a qualidade de vida.
- Idosos: Quando a alimentação oral eleva o risco de broncoaspiração e pneumonia aspirativa.
- Pacientes com câncer: Que não conseguem se alimentar por via oral por mais de uma semana, ou ingerem menos de 60% da necessidade diária por mais de duas semanas, mesmo com orientação e suplementos orais.
- Pacientes com diabetes: Iniciada em 24 a 48 horas, quando a alimentação oral é contraindicada ou insuficiente por 3 a 7 dias, mesmo com uso de suplementos.
A dieta enteral também é indicada para idosos em situações onde a alimentação oral é impossível, como lesões graves na cavidade oral, cirurgias na face ou cabeça e pescoço, obstruções completas do trato gastrointestinal e fístulas com perda significativa de líquidos.
Em suma, a dieta enteral é indicada para indivíduos que não conseguem atender às suas necessidades nutricionais pela alimentação normal, desde que o trato gastrointestinal esteja funcionando parcial ou totalmente. Pode ser utilizada de forma gradual como transição da nutrição parenteral, conforme a melhora da tolerância do paciente.
Diferença entre Dieta Enteral e Parenteral
A dieta parenteral, ou nutrição parenteral, é administrada diretamente na corrente sanguínea por via intravenosa, através de um cateter venoso. É indicada quando o trato gastrointestinal não pode absorver nutrientes adequadamente ou quando a via enteral é contraindicada ou inviável.
Por outro lado, na dieta enteral, os nutrientes são direcionados ao trato digestivo via sondas ou ostomias. Essa abordagem geralmente é preferível devido ao menor custo e aos benefícios na manutenção da integridade da mucosa intestinal e da imunidade.
Tipos de Dieta Enteral
As dietas enterais podem variar quanto ao modo de preparo e à sua composição nutricional.
1. Tipos de Dieta Enteral quanto ao Preparo
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Dieta Artesanal ou Caseira: Preparada com alimentos frescos como carnes, legumes, frutas, leite e óleos, que são liquidificados e coados para administração via sonda.
- Vantagens: Custo financeiro potencialmente menor e alta individualização da fórmula.
- Desvantagens: Dificuldade em garantir a quantidade exata de proteínas e calorias; pode obstruir a sonda devido à viscosidade; alto risco de contaminação microbiológica.
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Dieta Industrializada de Sistema Fechado: Dieta estéril, embalada industrialmente em recipiente hermeticamente fechado, pronta para conexão direta ao equipo de administração.
- Vantagens: Menor risco de desperdício e contaminação microbiológica; garante a precisão das calorias e proteínas prescritas.
- Desvantagens: Menor flexibilidade na individualização de volume e composição nutricional; custo aparente maior.
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Dieta Industrializada de Sistema Aberto: Fórmulas industriais que requerem manipulação antes da administração. Podem ser em pó, necessitando reconstituição com água, ou líquidas, necessitando transferência para o recipiente de alimentação.
- Vantagens: Disponível em pó e líquida, permitindo reconstituição conforme prescrição dietética; pode ser preparada e administrada em ambiente hospitalar ou domiciliar com rigorosas práticas de higiene.
- Desvantagens: Maior risco de contaminação e menor validade após preparo; alto índice de desperdício; dificuldade em atingir a necessidade calórica diária; necessita de lavagem rigorosa do equipo após cada infusão.
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Dieta Industrializada de Sistema Misto: Combina a dieta artesanal com produtos industrializados ou módulos nutricionais.
- Vantagens: Garante o fornecimento preciso de nutrientes essenciais via produtos industrializados; opção para uso domiciliar quando a via artesanal é utilizada, assegurando um aporte mínimo seguro de nutrientes.
- Desvantagens: Indicada apenas para residências com boas condições higiênico-sanitárias; contraindicada para desnutridos, com lesão por pressão ou alta meta nutricional; requer acompanhamento multiprofissional rigoroso; maior risco de contaminação microbiológica e instabilidade física/organoléptica.
A seleção do tipo de dieta enteral deve considerar as condições clínicas do paciente, o ambiente de administração, a necessidade de garantir o aporte nutricional prescrito e a minimização dos riscos de contaminação.
2. Tipos quanto à Composição
- Fórmulas Padrão (Polimérica): Contêm proteínas, carboidratos, lipídios, vitaminas e minerais. Podem incluir fibras alimentares conforme as recomendações gerais.
- Fórmulas Modificadas (ou Especializadas): Possuem alterações na composição (redução, aumento ou isenção de nutrientes) para atender necessidades específicas de pacientes com alterações metabólicas ou doenças.
- Módulos Nutricionais: Compostas por um único grupo de nutrientes (proteína, carboidrato, lipídio ou fibra), usadas para corrigir deficiências específicas em uma dieta.
- Dieta Enteral Oligomérica ou Elementar: Proteína já quebrada em peptídeos ou aminoácidos, indicada para pacientes com dificuldade de digestão ou absorção intestinal.
Existe também a dieta imunomoduladora, enriquecida com nutrientes como arginina, ômega 3, nucleotídeos e glutamina, com o objetivo de modular a resposta inflamatória, melhorar a função imunológica e auxiliar na cicatrização.
Como Administrar a Dieta Enteral
A administração da dieta enteral pode ser feita por meio de sondas nasoenterais, nasogástricas ou ostomias (gastrostomia e jejunostomia), dependendo da estabilidade clínica do paciente, do dispositivo utilizado e da localização da sonda.
As formas de administração incluem a contínua (geralmente 12 a 24 horas, com bomba de infusão) e a intermitente (gravitacional ou em bolus, fracionada geralmente de 4 a 6 vezes ao dia, com intervalos mínimos de três horas).
A dieta enteral também pode ser administrada de forma cíclica, com infusão contínua durante um período fixo do dia, como, por exemplo, durante a noite.
Cuidados Durante a Dieta Enteral
Alguns cuidados essenciais durante a dieta enteral incluem:
- No hospital: Verificar o rótulo da dieta (nome do paciente, leito, composição, volume, velocidade de infusão e validade) conforme a prescrição médica ou nutricional.
- Confirmar a localização e permeabilidade da sonda antes de iniciar a infusão.
- Manter o paciente com a cabeceira elevada em um ângulo de 30º a 45º durante a administração e por 30 a 40 minutos após o término, para reduzir o risco de refluxo, regurgitação e pneumonia aspirativa.
- Lavar o dispositivo com, no mínimo, 20 ml de água mineral ou filtrada antes e após a administração da dieta para garantir a permeabilidade e evitar obstruções.
- Realizar higiene rigorosa das mãos e desinfetar as conexões da sonda e do equipo com álcool 70%.
- Promover higiene bucal diária, incluindo o uso de clorexidina, para reduzir o risco de colonização bacteriana e pneumonia associada à aspiração.
- Não adicionar medicamentos diretamente nas fórmulas de dieta enteral para evitar incompatibilidades, obstrução da sonda ou alteração no efeito do medicamento.
É fundamental que a equipe médica esteja atenta a sinais de intolerância gastrointestinal, como distensão abdominal, náuseas e vômitos.
Possíveis Efeitos Colaterais e Complicações
Durante a dieta enteral, podem ocorrer efeitos colaterais como diarreia, prisão de ventre, náuseas, vômitos e distensão abdominal.
Adicionalmente, há um aumento do risco de flutuações na glicose (especialmente hiperglicemia), infecções gastrointestinais, broncoaspiração e pneumonia aspirativa.
Complicações relacionadas ao dispositivo podem incluir obstrução da sonda, erosão nasal, sinusite, escoriações e úlceras, além do deslocamento da sonda, que pode levar ao extravasamento da dieta para a cavidade abdominal, peritonite grave e até risco de óbito.
A síndrome da realimentação pode ocorrer quando a nutrição é reintroduzida de forma muito agressiva ou rápida em pacientes com desnutrição severa ou em jejum prolongado.
Quando a Dieta Enteral Não é Indicada
A dieta enteral não é indicada em situações de instabilidade hemodinâmica e metabólica severa, como choque não controlado, acidose láctica e metabólica grave, e hipoxemia.
Pacientes com isquemia intestinal, obstrução intestinal, síndrome do intestino curto, síndrome compartimental abdominal e sangramento ou hemorragia digestiva alta não controlada também não devem fazer esta dieta.
Além disso, a dieta enteral é contraindicada para indivíduos com intolerância e estase gástrica, e fístula de alto débito, quando não é possível posicionar a sonda distal à fístula.
